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22 novembro, 2013

Aos fãs de Doctor Who


Antes de tudo, uma confissão: não sou uma fã número um de Doctor Who. Não me entendam mal, é só porque ficção científica não é meu cup of tea. Mas sou, isso sim, fã dos fãs. E que melhor exemplo de fã do que os apaixonados e inventivos Whovians? Com certeza também os mais estilosos, com seus ternos, cachecóis e tênis All Star, e os mais antigos. Vocês resistem ao tempo assim como o próprio doutor - que, para quem não sabe, já viaja pelo universo muito antes do Spock, e numa nave que, se não mais potente que a Enterprise, no mínimo mais elegante. Este post é dedicado a vocês Whovians, e aos 50 anos da sua dedicação.

Palmas também para a “Tia BBC” (como é chamada na Inglaterra) por reinventar em 2005 um clássico que poucos acreditavam que daria certo numa versão 2.0. E deu.

Aqui estão os 10 melhores exemplos de fan art - ou Whovian art - que encontrei ao longo dos anos. Para começar, duas peças com meu doutor favorito, David Tennant: a primeira, lá no topo, é de KGreene, e a versão Simpsons abaixo é de Springfield Punx.


O Stewie Griffin virou Doctor Stew neste genial cross over feito pelo fã olg.


Outro cross over, desta vez com a turma do Peanuts, As criações de Adam Koford (primeiro) e Larry Wentzel (segundo) não deixam nada a desejar aos originais de Charles Schulz.


Time and Relative Dimensions in Space 2001, de Mark Wallinger, é uma versão da TARDIS coberta de espelhos, exposto na prestigiada Hayward Gallery de Londres.


Já o fã Timemachineyeah fez sua TARDIS numa versão mais low budget, usando uma geladeira velha.


Os bonequinhos Lego foram criados pelo fã Spielbrick.


Eggsterminate é um Dalek feito de ovo, criação da fã PugnoM, que inclusive ensina como confeccionar o seu, passo a passo.


Este belo cartaz estilo vintage foi criado pelo genial Benjashizzle.

E para terminar, uma dica para quem gosta de fan fiction: o site inglês A Tea Spoon and an Open Mind traz uma coleção de mais de 36 mil (!) textos. É leitura suficiente para uma vida inteira. De um Time Lord, é claro.

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04 janeiro, 2013

Blink to the Future


O "Blink to the Future" é um video mashup genial onde o universos de Back to the Future e Doctor Who se encontram. Criado pelo ótimo James Farr. Mais posts sobre fan art e produção de fãs aqui e aqui.




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09 novembro, 2012

BBC traz Michael Palin ao Brasil


Não é todo dia que se tem o privilégio de ver um ex-Monty Python lutando capoeira, dançando samba (na verdade tentando, pobrezinho, mas ganhou pontos pela fofura), ou mergulhando de boinha laranja na cintura no Rio Negro. Apesar de Cleese ser o mais engraçado, confesso que Palin sempre foi meu Python favorito, aquele com quem eu adoraria sentar e tomar uma cerveja, talvez simplesmente pelo fato de ele ter "gente boa" estampado na cara. E agora então, mais do que nunca. Quem ainda não viu o documentário da BBC Brazil with Michael Palin, dê um jeito de ver. É imperdível. E ainda tem a minha amiga Susie Valério (daqui de Porto Alegre) dublando todas as vozes femininas! :-)

Obrigada à Titia BBC por este presente de final de ano.




21 outubro, 2012

Comédia por uma boa causa

O Red Nose Day acontece uma vez por ano no Reino Unido. É uma campanha de caridade, que incentiva a população a fazer “algo engraçado” naquele dia. Amigos retribuem com doações, que são contabilizadas no final do dia pela BBC. Várias celebridades participam, e no passado a campanha já contou com a participação de Ricky Gervais (The Office), David Tennant (Doctor Who) e Daniel Craig (007).

Uma das paródias mais engraçadas até hoje foi Uptown Downstairs Abbey, uma brincadeira com os nomes de dois populares dramas de época ingleses, Downton Abbey e Upstairs DownstairsNela retornamos a Downton, agora habitado por Kim Cattrall (Sex and the City) e a dupla Jennifer Saunders e Joanna Lumley (da série cult Absolutely Fabulous). Como no drama originai, a questão da classe - velha obsessão inglesa - permeia todas conversas. Entre as melhores gags estão: Jennifer Saunders imitando o sotaque de Maggie Smith, a sempre elegante Joanna Lumley se recusando a atuar como serviçal, e Simon Callow (Quatro Casamentos e um Funeral) tirando onda com o inflado ego do roteirista Andrew Davies, rei dos dramas de época.

Há ainda uma piada que merece atenção. A personagem da parente distante, recebida com desdém por pertencer a uma classe mais baixa, faz o infeliz comentário: “You have a lovely lounge”. O silêncio constrangedor que se segue se deve ao fato de que existem palavras que “entregam” a classe da pessoa, por mais bem educada que esta seja, e "lounge" é uma delas. Os ingleses das altas camadas sociais usam o termo “drawing room” para se referir à sala de estar. Minúcias que para nós são difíceis de imaginar, mas que existem até hoje na cultura britânica. Ao menos eles sabem como ninguém fazer piada de suas próprias excentricidades. 

Assista aos dois episódios da hilária paródia Uptown Downstairs Abbey:






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15 agosto, 2012

Sean Bean brilha na nova temporada de Accused


Essa é para deixar os fãs de Game of Thrones de queixo caído. Sean Bean, nosso eterno Eddard Stark, provou ser um verdadeiro camaleão, ao interpretar um professor de literatura que é também um travesti, na nova temporada de Accused. A série da BBC, criada pelo aclamado roteirista Jimmy McGovern (de Cracker e The Street), estreou ontem no Reino Unido com críticas bastante positivas.

Abaixo o trailer da nova temporada e as fotos do longo processo de transformação de Sean Bean em Tracie Tremarco.




04 abril, 2012

A FAN ART DE MATT NEEDLE – Entrevista exclusiva



(POST DE 29/04/2011 ATUALIZADO COM NOVAS IMAGENS) 
Esta é uma entrevista exclusiva com Matt Needle, ilustrador e designer gráfico que já desenvolveu trabalhos para a revista Wired e para a Nike. Matt busca inspiração na cultura pop, e tem se destacado no mercado internacional pelas suas peças baseadas em séries de TV e cinema.

Apesar de britânico, Matt prefere a TV americana. Ele acredita que esta nova tendência da fan art se deve ao fato de que, na última década, as produções de alta qualidade da TV a cabo trouxeram prestígio à mídia televisiva, atraindo um maior interesse tanto do público como dos artistas. 

Confira a entrevista:

Meditations In an Emergency: O que despertou seu interesse pela TV? Percebo que grande parte dos designers, que como você costumava se inspirar no cinema e na música para criar fan art, agora tem homenageado a televisão.

Matt Needle: Sou um grande fã de TV, desde criança, e nos últimos anos a TV ficou cada vez melhor, principalmente as produções americanas, mas algumas britânicas também (como a ótima Life on Mars, que teve um remake americano deplorável). Depois que a HBO começou a se destacar no final dos anos 90, as outras emissoras tiveram que correr atrás e elevar seus padrões. Séries como The Sopranos, Band of Brothers, The Wire e Six Feet Under prepararam o caminho para séries como Breaking Bad, Mad Men, Walking Dead, Sons of Anarchy e Boardwalk Empire. Torço para que esta tendência se mantenha no futuro.


Meditations In an Emergency: Artistas como Christina Perry e Dyna Moe (conhecidas pelos seus trabalhos com Mad Men) e Ty Mattson (Lost e Dexter) têm indo ainda mais longe e fechado contratos com as próprias emissoras. O website da ABC inclusive vende produtos Lost que vêm com uma etiqueta de “fan made”.

Matt Needle: Certas emissoras perceberam que, se os designers estão criando obras de qualidade baseadas nas suas séries, elas podem ter parte neste lucro. O que não deixa de estar certo. Mas temo que o designer que se envolvem neste tipo de negociação não vê boa parte deste dinheiro. Infelizmente não há muito a fazer, uma vez que as emissoras sempre podem processá-lo por questões de copyright. Por outro lado, é preciso levar em conta que esta prática está dando uma exposição bem maior para estes artistas, que antes só atingiam um grupo limitado de fãs.

Eu só desenho coisas que eu gosto e que me inspiram, seja TV, cinema, música, o que for.

Meditations In an Emergency Você planeja fazer mais tributos a Mad Men e outras séries? Você tem twittado bastante sobre Dexter. É sua nova inspiração? E quanto às séries britânicas?
Matt Needle: No momento não tenho planos para fazer mais ilustrações de Mad Men, mas nunca se diz nunca. Dexter é uma possibilidade. No que diz respeito à TV do Reino Unido, para mim 89% do que produzimos é ruim, com raras exceções. A maior parte da programação é chata, com um visual pobre e um formato que francamente já deu o que tinha que dar.










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23 março, 2012

Comédia com pedigree


Para quem já está sofrendo por antecipação com o fim de House, recomendo uma dose de Hugh Laurie como você nunca viu. Afinal, antes de ficar conhecido no mundo inteiro como o complicado e talentoso médico da série americana, o ator britânico fez sua carreira na terra natal como comediante (Cambridge FootlightsBlackadder, Jeeves and Wooster, entre outros). E um dos programas que mais se destacam até hoje é a série A Bit of Fry and Laurie, transmitida pela BBC1 e BBC2 entre os anos de 1989 e 1995.

Trata-se de uma coleção de sketches hilários escritos por Hugh Laurie e Stephen Fry. A dupla se conheceu nos anos 80, através de ninguém menos que Emma Thompson (foto), quando todos ainda estudavam em Cambridge.

Sim, Cambridge. Não é a toa que o humor britânico é inteligente. Boa parte de seus comediantes frequentou as prestigiadas universidades localizadas em Oxford e Cambridge (entre eles Sacha Baron Cohen e parte dos integrantes do Monty Python).

Assista a alguns trechos de A Bit of Fry and Laurie legendados em português:






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11 março, 2012

Who's the boss? Steve Carell ou Ricky Gervais?

The Office: os dois piores chefes da história da TV


Delícia de intertextualidade: Michael Scott e David Brent, ou melhor, Steve Carell e Ricky Gervais, juntos em episódio de Life's Too Short, a nova co-produção entre BBC e HBO.


07 fevereiro, 2012

Dickens, o precursor da teledramaturgia



Leitura obrigatória nas escolas dos países de língua inglesa, Charles Dickens seria algo equivalente aos nossos queridos Machado de Assis e Jorge Amado, tanto em importância como em popularidade. Suas obras são, junto com as de Jane Austen, campeãs de adaptações da BBC (mais aqui). Exímio storyteller, Dickens criou personagens atemporais, multifacetados e cativantes. E como suas obras foram escritas em formato serializado, elas se adaptam facilmente à linguagem televisiva. Foi ele inclusive quem popularizou o cliffhanger (gancho), um recurso narrativo muito usado na TV para deixar o público na expectativa do próximo episódio.

Hoje Dickens estaria completando 200 anos. Por isso, Jace Lacob, do 
Daily Beast, resolveu perguntar aos roteiristas das séries Lost, NCIS, Big Love e Veep  qual a influência que o autor vitoriano teve em suas carreiras. Abaixo um resumo das respostas (versão completa em inglês aqui).

Gary Glasberg (de NCIS)
"Não consigo deixar de imaginar o que Dickens acharia da TV. Horas e mais horas de histórias de mistério, suspense e comédia produzidas no decorrer de um ano... Pensando bem, ele daria um excelente roteirista para a TV... Ei Charles, se você está disponível, tenho duas vagas para freelancer. E não se preocupe com os intervalos comerciais. Nós inserimos eles depois."

Damon Lindelof (de Lost)
"Acho que poderia dizer tranquilamente que Lost não existiria sem Charles Dickens. Ele é uma grande inspiração para tudo que amo em storytelling. A forma como ele publicava suas obras, em capítulos mensais, popularizou o storytelling serializado. E isso mais de um século antes da invenção da TV. Além disso, ele mudou o final de Great Expectations quando seus leitores reclamaram... Bom exemplo de como escutar sua comunidade de fãs."

Carlton Cuse (de Lost)
"Dickens foi o mestre irrefutável dos cliffhangers. Ele contava histórias serializadas, complexas e cuidadosamente construídas em torno dos personagens, que eram publicadas em jornais e atraíam um enorme público. Então nós pensamos, por que não podemos usar o mesmo modelo para Lost? Ele faz você querer saber não apenas o que vai acontecer depois, mas o que vai acontecer com aquele personagem especificamente. Isso se tornou mandatório entre os escritores de Lost: a mitologia é importante, mas mais importante ainda é contar uma história convincente e envolvente a respeito de nossos personagens."

Armando Iannucci (de Veep e The Thick of It)
"Em Little Dorrit, por exemplo, que mostra o quanto o governo e a burocracia não funcionam, admiro sua habilidade de ir do cômico para o dramático ou mordaz num pulo, e seu talento para manter a trama se desenrolando em três níveis diferentes."

Will Scheffer e Mark V. Olsen (de Big Love)
"Nosso personagem favorito é Oliver Twist, porque nos faz mergulhar no universo da pobreza (um ótimo recurso para apresentar este mundo aos leitores educados e de alto poder aquisitivo da época). É também um retrato do próprio artista, que sabe que, como Oliver, está destinado a algo maior."


31 janeiro, 2012

Como adaptar um clássico literário para a TV, por Andrew Davies


Em sentido horário: Little Dorrit, Bleak House, Tipping the Velvet,
He Knew He Was Right, Little Dorrit, Orgulho e Preconceito

Andrew Davies. O nome não soa familiar? Pense numa adaptação de um clássico literário, uma daquelas extraordinárias produções de época que a televisão inglesa - em especial a BBC - sabe fazer com incomparável competência. Lembrou de alguma? Pois é muito provável que tenha sido adaptada para a telinha por Andrew Davies, um dos mais requisitados e bem sucedidos roteiristas quando o assunto é adaptação de clássicos da literatura britânica. Entre seus vários trabalhos destacam-se:

House of Cards (1990), Emmy de melhor roteiro
Middlemarch (1994), WGA de melhor roteiro
Orgulho e Preconceito (1995), WGA de melhor roteiro
Emma (1996)
Bleak House (2005), BAFTA de melhor roteiro
Little Dorrit (2008), Emmy de melhor roteiro
South Riding (2011)

Aqui estão 10 dicas deste premiado roteirista sobre como adaptar um clássico literário para a TV, publicadas no jornal The Telegraph e traduzidas abaixo:

1. Leia e releia o livro. Mergulhe na história, nos personagens, na língua, nas emoções que a obra faz emergir. Só assim você poderá detectar as passagens ideais para dramatizar, e aquelas que darão um pouco mais de trabalho.
2. Pergunte-se: por que este livro, e por que agora? Muitos livros lidam com temáticas atemporais, relevantes através dos anos. Um romance que se passa nos EUA durante a Grande Depressão do final dos anos 20, por exemplo, pode ter muitos paralelos interessantes com a atual crise econômica mundial, por exemplo. Em The Way We Live Now, que se passa na Inglaterra de 1875, usei o famoso discurso “A ganância é boa” de Gordon Gekko do filme Wall Street como referência para uma fala de Melmotte, um personagem ganancioso e trapaceador.
3. Pergunte-se: sobre quem afinal é essa história? Nem sempre é óbvio. Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen conta a história do ponto de vista de Liz Bennet. Mas a história é também sobre a jornada de Mr. Darcy. Então eu permiti que a audiência visse Darcy a sós, ou com outras pessoas que não Liz, para que também o conhecem e o compreendessem melhor. 
4. Não tenha medo de fazer mudanças, principalmente na abertura da história. Na ficção literária, especialmente nos clássicos de época, os primeiros parágrafos costumam trazer com um texto mais brando, para introduzir a história ao leitor de forma mais suave. Na TV precisamos abrir com uma cena visualmente (e emocionalmente) forte, causar uma forte impressão imediata, para prender a audiência.
5. Não comece sem ter um plano. Tente começar com uma idéia clara de quantos episódios terá, e como cada um deles terminará, qual será o “gancho”. Conceber a estrutura de uma história seriada é uma das tarefas mais difíceis, especialmente se baseadas em textos extensos e enredados como Bleak House e Vanity Fair.
6. Nunca use uma fala se puder alcançar o mesmo efeito com um olhar. Uma das cenas mais tocantes da minissérie Orgulho e Preconceito, por exemplo, é quando Liz salva a irmã de Mr. Darcy de um momento embaraçoso na sala de música de Pemberley. Nenhuma fala poderia ser mais eficiente do que o olhar trocado pelo casal naquele momento.
7. Reduza os diálogos, mantenha a essência do autor. Sem dúvida os diálogos são importantes, em especial quando produzidos por talentosos escritores. Mas às vezes é possível preservar a essência do texto usando somente os melhores trechos.
8. Por que escrever cenas que não existem no original? Simples, porque a ficção na TV é muito diferente da literária. Às vezes é preciso inventar cenas inteiras para amarrar melhor a historia, e neste caso é importante cuidar para que os diálogos soem naturais, ou seja, que conservem o tom do autor.
9. Evite voice-overs, flashbacks e personagens falando direto para a câmera. Este tipo de recurso pode “roubar” uma cena, transferindo a atenção da trama para o recurso em si. Tendo dito isso, confesso que já usei os três recursos. E com o ator certo dirigindo-se para a câmera, como o brilhante Ian Richardson em House of Cards, o resultado pode ser fantástico.
10. Quebre as regras quando sentir que é a coisa certa a fazer.



19 janeiro, 2012

Por que a TV atrai cada vez mais nomes consagrados do cinema?

Reproduzo aqui minha entrevista publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora, em 11/01/2012. Link original aqui.


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Zero Hora — Por que razão muitos nomes conhecidos e com a carreira em alta no cinema estão investindo em projetos na TV?
Sheron Neves – A TV não é mais o destino de artistas em fim de carreira, como se costumava pensar. Muito pelo contrário. Para os atores, ela hoje oferece a oportunidade de fazer algo mais desafiador e gratificante, além de uma média de 10 horas por temporada para desenvolver um personagem. O mesmo vale para produtores, diretores e roteiristas, que encontram na TV por assinatura total liberdade para experimentar, criar tramas densas e explorar temáticas tabu.

ZH – Canais por assinatura dos EUA, como HBO, Showtime e AMC, são as grandes referências nesse modelo de produção?
Sheron – HBO (Game of Thrones, Boardwalk Empire, True Blood) e Showtime (Dexter, Homeland) são sem dúvida as grandes referências, por serem canais premium (mais caros que o pacote básico) e não dependerem de anunciantes, e sim de assinantes. Por isso seus executivos não se acovardam com a possibilidade de o público não entender ou se ofender com algo. Já a AMC (Mad Men, Breaking Bad, Walking Dead) e a FX (Nip/Tuck, Damages, American Horror Story) são um meio termo: são canais a cabo e têm um público seleto, entretanto dependem de anunciantes e por isso estão atrelados aos índices de audiência.

ZH – Esse patamar de qualidade é possível de ser alcançado apenas na TV por assinatura ou poderia ser aplicado na TV aberta?
Sheron – Alguns vanguardismos ficam, é claro, restritos à TV por assinatura premium e à TV pública. Ambas podem se dar ao luxo de correr riscos por não precisar agradar anunciantes. Mas, obviamente, este novo patamar de qualidade acaba respingando na TV aberta, numa espécie de efeito cascata. O fato de um personagem complexo como House ser um sucesso estrondoso da TV aberta é prova deste efeito. A TV por assinatura criou mafiosos (Tony Soprano), psicopatas (Dexter), traficantes (a Nancy de Weeds) pelos quais nos apaixonamos, porque enxergamos (ou ao menos queremos enxergar) o lado humano deles. House é um típico personagem da TV por assinatura, mas que nasceu na TV aberta justamente devido a estas mudanças. Já no Brasil, os excelentes seriados Capitu e Clandestinos mostraram que existe espaço para produtos mais inteligentes e inovadores. Outra influência da TV por assinatura é o crescimento de comédias sem as tradicionais risadas de fundo (em inglês, "laugh track") da TV aberta, como The Office, Modern Family e 30 Rock. O sucesso destas séries prova que o público não quer mais tudo mastigado, um recurso tão antigo quanto I Love Lucy.

ZH – Dado ao padrão variado de gêneros, de Mad Men a The Walking Deade ao melodrama Mildred Pierce e ao fabular Game of Thrones, seria possível traçar um perfil de qual é o tipo de produção que pode dar certo ou não?
Sheron – Não acredito que exista uma fórmula de sucesso. O importante é não subestimar a inteligência da audiência, não ficar preso a fórmulas, e focar em personagens interessantes e multifacetados. A tendência é existir cada vez menos espaço para o velho maniqueísmo folhetinesco da luta do bem contra o mal.

ZH – Quais atrações vocês destacaria, entre as recentes e as nem tanto, como responsáveis por elevar a TV a um novo padrão de qualidade e por que razão?
Sheron – Algumas pessoas comentam que ano desta transição foi 1990 com Twin Peaks, de David Lynch. Twin Peaks foi sem dúvida um caso raro, assim como Riget, a bizarríssima série escrita e dirigida por Lars von Trier para a TV dinamarquesa no início dos anos 1990. Elas são consideradas (felizes) acidentes de percurso por muitos autores, mas a maioria considera A Família Soprano (1999), da HBO, o marco zero oficial. Na carona de Tony Soprano vieram Sex and the City e A Sete Palmos, e pela Showtime a versão americana de Queer as Folk, seguida de The L Word e Weeds. A maturidade do público, que é hoje bem mais exigente e crítico, pode ser apontada como uma das causas para esta transformação. Alguns autores também citam o fator prestígio. A partir da virada do século, a TV por assinatura começou a receber uma enorme quantidade de prêmios e a gerar muito buzz na mídia. A ideia da TV como algo desprezível e alienado começou a desaparecer, passando a ser vista pela primeira como arte. Não foi por acaso que a HBO adotou o slogan: "Não é TV. É HBO". Se a HBO não é TV, então quem consome também não é qualquer telespectador. O prestígio se transfere do produto para o consumidor: "Se consumo HBO então sou parte de uma elite, tenho capital cultural". Uma estratégia de marketing brilhante.

ZH – Essa realidade é uma tendência com prazo de validade ou tende a se consolidar?
Sheron – Sem dúvida, esta tendência deve muito ao fato do cinema estar cada vez mais comercial. As produções independentes e mais autorais encontraram na TV fechada um porto seguro. Se você escutar os discursos de agradecimento durante os prêmios Emmy e Globo de Ouro vai escutar: "Obrigado HBO por acreditar" dezenas e dezenas de vezes. Vivemos um momento único na história da televisão, e não é a toa que existe um boom de cursos de graduação e pós-graduação nesta área no hemisfério norte, e a tendência vem aos poucos chegando ao Brasil. O mesmo acontece com publicações e livros acadêmicos nesta área. O que ainda falta aqui é mais espaço na imprensa para debater a TV de forma inteligente, uma crítica mais especializada, como ocorre nos grandes jornais internacionais. Quanto mais informado o público estiver, maior é a chance de torcer o nariz para programas banais.

ZH – Ainda faz sentido usar as distinções linguagem cinematográfica e linguagem televisiva?
Sheron – Esse assunto é polêmico e já foi tópico de longas discussões acadêmicas. Não há dúvida que a TV tem se apropriado da linguagem e da estética cinematográfica (altos valores de produção, narrativa mais lenta, personagens e finais ambíguos), mas o elemento que sempre irá diferenciar os dois é a narrativa serializada. O arco da história em um episódio de uma hora na TV aberta é diferente do arco em um episódio na TV fechada, que por sua vez sempre será diferente do arco de um filme de duas horas.

ZH – Poderia se afirmar que é mais fácil identificar um público alvo numa produção para a TV fechada e mirar direto nele sem fazer concessões?
Sheron - A televisão, infelizmente, ainda produz muito lixo, mas o cinema também o faz, assim como a indústria fonográfica e o mercado editorial. A TV não é sozinha responsável pela banalização cultural. E, assim como em todos estes mercados, existem nichos específicos para os quais certas coisas funcionam melhor. Mas não confio muito em segmentações etárias, sociais, ou regionais, pois podem ser rótulos um tanto simplistas e excludentes. Produtores de TV não deveriam presumir o que o público gosta com base nestes rótulos. Com as mídias sociais cresce cada vez mais a necessidade de se levar em conta o perfil psicográfico (baseado nos valores e estilo de vida e menos em fatores demográficos). Quando pessoas se agrupam online, seja através de comunidades de fãs ou nas redes sociais, elas não o fazem baseadas em idade, raça, ou gênero. Elas o fazem em torno de interesses e aspirações. O mesmo vale para o que elas assistem.

ZH –A rede britânica BBC tem um longo histórico de produções de alto nível para a TV, com presença de grandes atores. Dá para comparar com o padrão americano ou o foco deles é, digamos, mais clássico?
Sheron – Não sei se clássico, mas certamente é mais compromissado com a cultura. No Reino Unido, a TV tem um DNA completamente diferente da americana, pois já nasceu pública, e só teve que enfrentar concorrência comercial anos depois. A BBC é literalmente sustentada pelos cidadãos britânicos, através de uma taxa obrigatória que equivale a aproximadamente 350 reais por ano, somente para ter uma TV ligada em casa. Desta forma ela tem um compromisso com o público, e leva a sério seu lema "educar, informar e entreter". Outra grande diferença é que os britânicos sempre foram mais tolerantes em relação a temas tabu, e as tramas tendem a ser bem mais realistas e menos açucaradas. Já nos EUA, a TV nasceu comercial, com os patrocinadores ditando as regras dos programas desde o início. Como o foco sempre esteve nos níveis de audiência, tramas complexas e narrativas mais lentas nem sempre encontram ali um terreno fértil. O excessivo moralismo da sociedade americana também é determinante. Skins, por exemplo, é uma série inglesa que mostra adolescentes tendo relações sexuais e consumindo drogas. No seu país de origem é transmitida às 22h em canal aberto sem grandes problemas. Já nos EUA, Skins causou tamanha polêmica e boicotes pelo PTC (Parents Television Council) que a maioria dos anunciantes cancelou o patrocínio por medo de prejuízo nas vendas e na imagem da empresa. Por isso muitos remakes de séries britânicas não funcionam na TV aberta americana (com raras exceções como The Office).

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