31 janeiro, 2011

Curtas gaúchos na TV

Nos próximos sábados, irão ao ar na RBS TV cinco curtas gaúchos, logo após o Jornal do Almoço. Para o pessoal de outras partes do Brasil e do mundo, é possível assistir aos curtas através do portal ClicRBS, após sua exibição.

"Traz outro amigo também" – Sábado 5 de fevereiro  (assista ao trailer)
Direção: Frederico Cabral



"Volto Logo" – Sábado 12 de fevereiro  (assista ao trailer)
Direção: Eduardo Wannmacher


"Gigante de Ferro" – Sábado 19 de fevereiro
Direção: Matheus Piccoli


"Amigos Bizarros do Ricardinho" – Sábado 26 de fevereiro (assista ao trailer)
Direção: Augusto Canani



"Folia no Pampa" – Sábado 5 de março
Direção: André Costantin

Mais informações, sinopses, curiosidades e entrevistas no ClicRBS.

29 janeiro, 2011

Call for Papers: “Representations of Love in Film and Television”

O jornal acadêmico Film & History, editado pelo Center for the Study of Film and History, da University of Wisconsin Oshkosh, está aceitando artigos para publicação em sua edição especial “Representations of Love in Film and Television”, que circula no segundo semestre de 2011.

Essa edição especial irá considerar como o tema amor tem sido representado e re-escrito através do cinema e da televisão ao longo dos anos.

Este tópico foi foco da conferência de mesmo nome, realizada em 2010 pela instituição, mas o CFP é aberto a todos e não apenas aos participantes do evento.

Serão considerados artigos de 4.000-7.000 palavras. O deadline é 01 Maio de 2011. Mais informações e contato aqui.

24 janeiro, 2011

Onion News Network: da web para a TV


Com tantas séries hoje em dia investindo em webisodes e spin-offs online, o mais popular jornal de sátiras dos EUA, o The Onion, está fazendo o caminho inverso.

Responsável por inúmeros vídeos de notícias falsas parodiando os noticiários norte-americanos, o website acaba de lançar uma série no canal americano Independent Film Channel (IFC). A série segue os moldes do filme de 2008, e a julgar pelo primeiro episódio, que foi ao ar em 21 de janeiro, tudo indica que a série Onion News Network vai gerar muita polêmica e colocar o pequeno e ainda pouco conhecido canal de TV a cabo no mapa.

O programa é apresentado pela personagem Brooke Alvarez, interpretada pela ex-âncora da Fox News Suzanne Sena, na vida real um rosto conhecido do telejornalismo americano (o que acrescenta um toque ainda mais surreal às já bizarras reportagens apresentadas).

Entre elas, destaca-se a notícia a respeito da quinta tentativa de assassinato da filha de Tom Cruise, Suri, por um grupo de soldados do futuro. Os “rebeldes” do ano de 2075 defendem ser necessário “eliminá-la” a todo custo para que a humanidade seja salva, uma hilária referência ao filme O Exterminador do Futuro. A propósito, a idéia de satirizar os Cruise não é nova, e é tema recorrente em séries como Family Guy, South Park e Saturday Night Live.

Em outra sequência do programa - cujo slogan é “televisão sem piedade”- uma adolescente branca que cometeu um assassinato violento é julgada como se fosse um homen negro. Em uma coletiva de imprensa, a sua família dá a seguinte declaração: “Vamos fazer de tudo para que nossa filha seja tratada com todo o respeito e simpatia que uma garota branca e fotogênica merece..."


Sem dúvida não há lugar para o politicamente correto no Onion News Network. Resta saber se haverá lugar para a série no superpopulado universo televisivo americano, assim como anunciantes dispostos a correr o risco de perder o cliente mas não perder a piada.

23 janeiro, 2011

Televisão + Pop Art (parte 2)

Life on Mars (UK) Board Game, criado por Garry Azzaro
Seguem mais alguns exemplos de fan art, descobertos logo depois do post Televisão + Pop Art, de 15 de janeiro, alguns deles enviados gentilmente por leitores.

São peças originalmente criadas por fãs, com valores que não passam de US$ 30 dólares. São portanto bem mais acessíveis do que as anteriormente citadas. Nada de galerias de arte, nem nada acima de quatro dígitos. Mas também nada de exclusividade.

Alguns trabalhos estão à venda nas próprias online stores das emissoras, como é o caso da ABC, que de olho neste rentável filão, utiliza etiquetas vermelhas estrategicamente colocadas ao lado dos produtos dizendo: “fan made”. Uma espécie de certificado de autenticidade que, presume-se, serve para persuadir o fã mais anti-consumista de que não se trata de um produto qualquer produzido em massa numa fábrica na China, mas sim uma peça manufaturada com todo carinho por alguém que divide com ele a mesma paixão pela série. Those clever marketing folks at ABC...

Wallpaper iHouse, criado por Magz19

Wallpaper iHouse, criado por Jason Stansell


Relógio LOST, com os hilários apelidos usados
pelo personagem Sawyer (ABC Store)
Adesivo Mad Men para laptop, criado por tittleandlobe

Ensaio fotográfico inspirado em Mad Men,de
Michael Williams, para a revista Haute Doll, Mar/Abr 2010

VIII Encontro Nacional de História da Mídia


O VIII Encontro Nacional de História da Mídia acontece em Guarapuava (PR), de 28 a 30 de abril de 2011, com o tema central é "Público e Mídia: Perspectivas Históricas". As inscrições estão abertas até dia 15/03/2011 para trabalhos dentro dos seguintes tópicos:

- História do Jornalismo
- História da Publicidade e da Comunicação Institucional
- História da Mídia Digital
- História da Mídia Impressa
- História da Mídia Sonora
- História da Mídia Audiovisual e Visual
- História da Mídia Alternativa
- Historiografia da Mídia

Mais informações aqui.

18 janeiro, 2011

Dica de Livro: Dr. Jung analisa Dr. House


O livro House: The Wounded Healer on Television - Jungian and Post-Jungian Reflections é uma coletânea de artigos que examinam o complexo personagem do Dr. Gregory House, da série House M.D.através de uma perspectiva Junguiana.

A construção dos personagens, os temas e conflitos recorrentes, a estrutura visual e narrativa da série são cuidadosamente dissecadas, e conceitos clássicos da psicologia Junguiana como o curador ferido e o puer aeternus são explorados.

O curador ferido é um arquétipo da psicologia Junguiana, que tem no mito de Quiron uma das melhores representações das polaridades saúde e doença. Na mitologia grega, Quiron, filho de Cronos e de Filira, se tornou o mais sábio dos centauros. Foi ele quem ensinou a arte da cura a Asclépio, que se tornou depois o deus da Medicina. Quando Quiron foi atingindo pela flecha envenenada de Hercules, porém, todo este conhecimento não foi suficiente para curá-lo. Como Quiron era imortal, o ferimento causado jamais curaria, causando dores terríveis e intermináveis.

O puer aeternus (do latim “jovem eterno”) é outro arquétipo da psicologia Junguiana, caracterizado pela eterna imaturidade, que pode levar a problemas psicológicos como o narcisismo, a indisciplina, e a inabilidade de desenvolver uma perspectiva adulta apropriada à vida.

Estes elementos estão indubitavelmente presentes na construção do personagem do médico genial, rebelde e ferido (física e emocionalmente) de Gregory House.
Editado pelos acadêmicos britânicos Luke Hockley (Media Studies, University of Bedfordshire) e Leslie Gardner (Psychoanalytic Studies, University of Essex), o livro vem com um glossário das principais terminologias Junguianas, o que permite que possa ser apreciado mesmo por aqueles fãs da série que não possuem maior familiaridade com esta escola da psicologia.

O primeiro capítulo, intitulado “Gregory House: physician, detective or shaman?”,está disponível para download aqui.


Laranja Mecânica chega à meia idade

Em 2011 o über cult Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) está completando 40 anos (a estreia oficial foi em Dezembro de 1971 nos EUA). Nestas quatro décadas, entre cortes, protestos, e muito Beethoven, esta obra prima de Kubrick segue maravilhando e chocando platéias mundo afora, quebrando paradigmas ao retratar a violência de uma forma totalmente estilizada, embalada pela trilha arranjada por Walter (a.k.a. Wendy) Carlos (leia mais sobre a trilha sonora aqui). Trata-se de um raro exemplo de adaptação em que o filme consegue ser superior ao livro.

No Brasil o filme só foi liberado em 1978. Aparentemente a preocupação maior da censura na época era a nudez e não a violência: as cópias exibidas no país possuíam (as hoje lendárias) bolinhas pretas, que tentavam inutilmente cobrir o sexo dos atores nas cenas de nu frontal.

Com bolinhas ou sem bolinhas, Laranja Mecânica ainda é um ícone do cinema e da cultura pop, com uma linguagem visual que consegue o feito de permanecer sempre atual. Portanto aqui vai uma seleção de referências e homenagens encontradas na TV e na web ao longo dos anos. A primeira é um episódio real dos Simpsons, mas as outras são criações exclusivas de fãs.

Os Simpsons:




South Park: (imagem parte do vídeo criado por lolosasd)


Family Guy:

Snoopy "DeLarge": (criado por D4N13L)




Alternate Universe Movie Poster: (à venda na Hartter) 



 Movie Poster: (homenagem criada pelo designer Heath Killen)




Movie Poster: (homenagem criada pelo designer Brandon Schaefer)



 Movie Posters: (duas homenagens criada pelo designer Carlos Ramos)






Vale também incluir entre os tributos ao filme o disco Ein kleines bißchen Horrorschau (A little bit of horrorshow), da banda punk alemã Die Toten Hosen. A canção Hier kommt Alex (Here Comes Alex) já ganhou versões cover e faz parte do game Guitar Hero.





Em tempo: 
Em 1979 o diretor deu uma entrevista exclusiva a Michel Ciment sobre o filme. Leia a entrevista na integra no The Kubrick Site.

15 janeiro, 2011

Televisão + Pop Art


Ilustração de Dyna Moe para Mad Men. Clique para ver mais.

Séries como Mad Men, Lost, Dexter, True Blood e Law & Order, além das clássicas e cultuadas Twin Peaks, Arquivo X, Buffy e Seinfeld, fazem parte de um crescente fenômeno da cultura pop, o da arte baseada em séries de TV. Não me refiro exclusivamente a produtos com a marca do show licenciados pelas emissoras e produzidos em massa (que merecem um estudo à parte), mas a obras vendidas em galerias de arte, que chegam a custar até mais de US$ 1.000,00.

A fan art, a arte produzida por fãs e para fãs, costumava limitar-se a meros desenhos amadores. Mas a dramaturgia televisiva, que tem hoje em dia um conteúdo (e um público) bem mais sofisticado, tem servido de rica fonte de inspiração para ilustradores profissionais.

Para Jace Lacob do jornal Daily Beast, o sucesso destes novos "artistas-fãs" marca uma importante transformação no cenário da cultura pop. Ele acredita que a TV criou uma nova categoria de pop art que, difundida na internet e nas mídias sociais, fomenta e simultaneamente sacia o desejo de um público ávido e consumista, que deseja possuir algo exclusivo do seu programa favorito, que não pode ser encontrado no shopping ou na loja de departamentos.

Esse tipo de comportamento, típico dos fãs da nova era televisiva, vale tanto para séries atuais e como antigas e/ou canceladas. Em alguns casos, como aponta o especialista em fan culture (termo que em português seria algo como "cultura dos fãs", ou dos aficcionados), Matt Hills, a fidelidade à série muitas vezes se intensifica após seu cancelamento. Para estes “orphan-fans”, como o pesquisador os define, o desejo de possuir algo palpável, único, que seja motivo de orgulho, é ainda maior. Ele acredita que a popularidade deste tipo de artefato está relacionada a “collector’s mentality” da nossa sociedade contemporânea.

Outro especialista em cultura participativa, Henry Jenkins, defende que na cultura da convergência, a mídia corporativa e a mídia alternativa se cruzam, da mesma forma que o poder dos produtores de mídia e dos consumidores finais. Assim, no atual ambiente transmidiático, fãs de TV tenderão cada vez mais a criar suas próprias reinterpretações de conteúdo, como mash-up videos, fan art, fan fiction, fan films, e distribuir suas obras ao mundo inteiro pela internet.

Para os fãs com maior poder aquisitivo, as opções são variadas. Para os menos privilegiados, há sempre opções mais em conta, e basta substituir a galeria de arte pelas livrarias ou pelo e-Bay. Um pouco menos exclusivo talvez, mas para alguns extremamente gratificante.Os artistas mais celebrados no momento incluem:

Betty Draper num ataque de fúria: hilária referência
ao disco London Calling do The  Clash
Dyna Moe:

Em 2007, a então pouco conhecida designer gráfica criou um cartão de natal inspirado em Mad Men para um amigo ator.

Ela não imaginava que aquela ilustração seria o início de uma jornada de sucesso que já dura três anos, durante os quais ela já produziu inúmeros materiais promocionais, além do website Mad-Men-Yourself (onde se pode criar avatares no estilo anos 60) e recentemente o livro Mad Men: The Illustrated World, uma divertida coleção de ilustrações que esgotou no primeiro dia de vendas na Amazon.com.


“A época em que Mad Men é ambientado é muito inspiradora”, diz ela, “e permite contrastar as storylines de desespero e frustração dos personagens com o leve e inocente estilo pop art tão usado na época para vender sabonetes, cereais e cigarros”.





El Lohse:


Os trabalhos de El Lohse homenageiam séries contemporâneas como 30 Rock e The Office, e clássicos como Mary Tyler Moore (imagem ao lado) e As Super Gatas, além de vários ícones da TV dos anos 80.

“Minha arte se difundiu ao redor do mundo através das galerias de arte e também através de trabalhos encomendados por clientes, como os produtores da série The Office”, escreve El em seu website.


Ty Mattson: 


O ilustrador se destacou depois de criar uma edição limitada de cartazes inspirados na série Lost, que acabaram sendo colocados à venda no site da ABC. Como a série já possuía uma mitologia e uma narrativa muito complexa, ele preferiu criar algo mais minimalista e abstrato, usando grafismos simples mas elegantes.

Posteriormente ele criou ilustrações baseadas na série Dexter, focando na contradição entre o ambiente tropical e festivo da Flórida e a violência da trama. Em entrevista ao Daily Beast, ele diz: “Como o marketing de Dexter normalmente remete à natureza macabra da série, eu quis criar algo leve, que lembrasse um panfleto turístico antigo de Miami".




Outros artistas que usam a TV como inspiração incluem Kiersten Essenprei (que também faz ilustrações de tweets), Mark Bodnar e Tim Tomkinson, que em 2009 participaram da exposição Idiot Box, na 1988 Gallery de Los Angeles. Abaixo estão algumas de suas obras:

Trabalho de Kiersten Essenprei inspirado em Twin Peaks

Mark Bodnar, inspirado em Lost


Tim Tomkinson, inspirado em Arquivo X e Alfie

Mad Men, Mad Americans

Meu artigo publicado no Caderno de Cultura do Jornal Zero Hora em 08/01/2011 (com o título "Glamouroso mundo do faz de conta"). Abaixo o texto na íntegra.

 


- “Quem é Don Draper?”, pergunta o repórter da revista Advertising Age, na cena de abertura da 4ª temporada de Mad Men. Esta é uma pergunta que a audiência aguarda resposta desde julho de 2007, quando a série de TV estreou nos EUA. O personagem de Don Draper, vivido pelo ator Jon Hamm (foto ao lado), é um enigma não só para o público como para ele mesmo, e sua tortuosa jornada de autoconhecimento, paralela à jornada da própria sociedade americana, é um dos elementos que torna Mad Men um dos mais ambiciosos e inteligentes projetos da história da televisão.

Favorita da crítica e premiada com 13 Emmys e 4 Golden Globes, a série do canal a cabo AMC já e distribuída para mais de 20 países e vem lentamente alcançando um número respeitável de fãs ao redor do mundo.

Mad Men é ambientada no glamoroso mundo da propaganda da Nova Iorque dos anos 1960. O título refere-se aos publicitários (em inglês “ad men”) da Madison Avenue, e é também um trocadilho com a palavra “mad”, que em inglês significa louco. A história começa na primavera de 1960, e somos apresentados a tipos ainda encaixotados dentro de padrões conformistas e machistas dos anos 1950. Estamos no período pré-Vietnã, pré-feminismo, pré-Prozac, e anos luz do politicamente correto. Como expectadores de um filme de suspense, nos deleitamos em ver os personagens serem surpreendidos pelo inevitável. Assim como Kennedy não consegue evitar a bala em novembro de 1963, os personagens não conseguem escapar do rolo compressor que está prestes a triturar seus valores, suas relações e sua própria identidade.

Trata-se de um complexo retrato da fantasia do sonho americano e do seu inevitável desmoronamento, habilmente representado na vinheta de abertura. Abertura que, conforme apontado pelo pesquisador Gary Edgerton (Old Dominion University), faz alusão não apenas a Um Corpo que Cai de Hitchcock, mas também a uma mórbida imagem do inconsciente coletivo americano, a do homem desconhecido jogando-se do alto do World Trade Center durante os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

 Detalhe da vinheta de abertura de Mad Men

The Falling Man, foto tirada por Richard Drew durante o
ataque de 11/09/01 ao World Trade Center
A série lança um olhar cético sobre os anos 1960, explicitando detalhes que usualmente são deixados de fora de dramatizações mais nostálgicas sobre a época. Trata-se de uma tendência recente, que pode ser observada em filmes como Educação, roteirizado por Nick Hornby, O Direito de Amar, de Tom Ford, Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, e Um Homem Sério, dos irmãos Cohen. Nascidos entre 1957 e 1965, estes diretores/roteiristas vivenciaram a década como crianças, e propõem a releitura de uma era nem tão dourada quanto gostaríamos de acreditar.

No Brasil Mad Men pode ser vista na HBO, que em breve transmitirá a 4ª temporada. A série aqui conquista adeptos a passos mais brandos, e ainda está longe da popularidade alcançada na América e na Europa. Isto se deve em parte à demora no lançamento da 2ª temporada em DVD. Mas não é só isso. Uma das principais reclamações é seu ritmo lento. Contudo, uma edição mais acelerada não permitiria mostrar a complexidade e a desorientação dos personagens. Sua crise existencial pode às vezes ser mais bem expressa em longos silêncios do que em qualquer outro recurso de linguagem.

Imagem é tudo
No centro desta crise de identidade nacional está o protagonista, Don Draper, ele próprio uma mentira cuidadosamente bem construída. Ele não é quem diz ser. Ironicamente, seu trabalho é justamente vender o sonho americano. Don é uma pessoa por dentro e outra completamente diferente do lado de fora. Essa é a história da América”, explica seu idealizador, Matthew Weiner.

E esta é a história de todos nós. Não é por acaso que o público em 2010 se identifica com os personagens. Somos apenas suas versões pós-modernas, tentando fazer o melhor com o que o futuro nos joga a uma alarmante velocidade. Da mesma forma que nos reinventamos em perfis no Facebook, mascarando inseguranças atrás de avatares e belas fotos, a geração de Mad Men se protegia atrás de suas convicções, dos papéis pré-estabelecidos dos gêneros e da ilusão de perfeição. A diferença está apenas na quantidade de uísque, cigarros e tapinhas no bumbum das secretárias. No contexto da série, o machismo, o racismo e a homofobia são socialmente tolerados. Ninguém quer enxergar o ambíguo, o diferente. Assim como na publicidade da época, a ilusão de perfeição é o que conta.

Mulheres à beira de um ataque de nervos
As questões femininas são um tema constante, e a série foi apelidada de “a mais feminista da TV” pelo jornal Washington Post. Nas palavras de Jefferson Robbins, autor do excelente documentário Retro (sobre o trabalho de câmera e linguagem visual de Mad Men), a série desconstrói uma era em que “os homens eram homens, e as mulheres eram o que os homens permitiam que elas fossem”. Algumas cenas de fato são tão chocantes que não é de surpreender que na década seguinte as mulheres estivessem ateando fogo aos seus sutiãs.

Os arquétipos femininos e masculinos – e da família – são vistos através de uma lente de aumento. O mal causado pela fumaça dos cigarros (acesos incontáveis vezes durante cada episódio) talvez seja menos nocivo do que o dano emocional sofrido pelos personagens infantis. A falta de tato com que os pais transmitem valores fazem com que o público acima dos 40 anos enxergue um pouco de sua própria infância na tela. Só que é possível agora enxergar a insegurança atrás da rigidez destes pais.
 
A bela e engaiolada Betty Draper 
O drama já foi chamado de “essencialmente freudiano”. A personagem de Betty Draper (vivida por January Jones) foi inclusive votada “a pior mãe da televisão”. Mas é difícil não sentir compaixão por essa mulher enclausurada numa vida aparentemente perfeita. Como a personagem April Wheeler em Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes, a vida de casada é bem diferente do que ela esperava.

A vida no ambiente corporativo não é menos restrita. Os homens são geralmente filmados de baixo para cima, um enquadramento que simula o ponto de vista das secretárias. Estas usualmente aparecem chorando no banheiro, um toque tragicômico que lembra o clássico Se Meu Apartamento Falasse de Billy Wilder, filme que também é usado como referência visual para o interior da agência de publicidade.

Já a jovem profissional Peggy Olson (Elizabeth Moss) possui mais alternativas, mas paga um preço alto por elas. Ela não tem as curvas da femme fatale Joan Holloway (Christina Hendricks), mas é talentosa e conquista espaço no setor de criação da agência, território até então dominado por homens. Porém quando pede ao chefe um aumento, alegando que sua secretária ganha quase o mesmo que ela, Don responde: -“Então arranje uma secretária mais barata.”

Maturidade do meio
São projetos como este que provam que a dramaturgia televisiva vem aos poucos saindo da zona de conforto e passando por uma evolução na qualidade. Transformação liderada pela TV a cabo (especialmente pelo canal HBO), que por não possuir o mesmo compromisso com os níveis de audiência da TV aberta, pode ousar e oferecer aos roteiristas uma liberdade criativa semelhante à encontrada no cinema independente. O que, a longo prazo, tende a afetar a TV como um todo (Lost e House são exemplos recentes desta influência na TV aberta, assim como Capitu e Som e Fúria no Brasil).

Em Mad Men o resultado desta liberdade é um trabalho onde temas sensíveis como a solidão no casamento, a fragilidade masculina e a busca de aprovação social são abordados de uma forma original. Crédito para os produtores, por provarem que existe espaço para tramas psicologicamente densas na TV, e confiarem na capacidade do público de apreciar uma obra tão cheia de nuances. “Construa e eles virão”. Mesmo que lentamente.

14 janeiro, 2011

HÁ 30 ANOS...

... NO BRASIL:  TV Mulher comemorava um ano (em abril de 1981). O programa ficaria no ar na Rede Globo até 1986. TV Mulher é relevante por:

- ser um programa inovador para a época, voltado para a mulher moderna, com quatro horas diárias (quase que integralmente) ao vivo.

-abordar temas como comportamento sexual e os direitos da mulher pela primeira vez na televisão  brasileira. Nas palavras de Maria Helena Dutra, do Jornal do Brasil, Marta Suplicy discutia sexo “sem sensacionalismos baratos ou morais rígidas, e atingiu o difícil equilíbrio de ser principalmente didática e esclarecer um assunto no qual a maioria dominante da população brasileira é totalmente analfabeta”.

- reunir nomes de peso como Marília Gabriela, o costureiro Clodovil, Marta Suplicy e o cartunista Henfil num mesmo programa, além de Rita Lee cantando a icônica música de abertura.

- imortalizar Elis Regina junto com a filha Maria Rita numa entrevista à Marília Gabriela, em que a cantora defende a importância do respeito ao meio-ambiente e a importância da criação de um Partido Verde no Brasil.



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... NO REINO UNIDO:  A minissérie Retorno a Brideshead (Brideshead Revisited), ambientada na Oxford dos anos 20 e baseada no romance de Evelyn Waugh, estreava (em outubro de 1981) no canal aberto ITV, transformando-se num estrondoso sucesso de público e alterando para sempre os padrões de qualidade da TV britânica. Em 2008 foi feita uma versão para o cinema, extensamente criticada pelos mesmos puristas que rejeitaram a versão cinematográfica da igualmente reverenciada minissérie de TV Orgulho e Preconceito.

Retorno a Brideshead é relevante por:

- ter recebido inúmeros prêmios e estar na lista dos 100 melhores programas de televisão do Reino Unido.

- explorar o tema da divisão de classes na sociedade britânica, além dos tabus sexuais da época e do declínio do império inglês.

- ter um grande impacto na moda masculina dos anos 80, popularizando os ternos de linho, o relógio de bolso, os suéteres de críquete, os coletes e as estampas tweed, estilo explorado por designers como Ralph Lauren e Marc Jacobs. Além disso, o excêntrico aristocrata Sebastian Flyte (Anthony Andrews) carrega sempre consigo seu ursinho de pelúcia Aloysius, o que na época foi  imitado por estudantes na Inglaterra e EUA, ressurgindo em 2005 na coleção de Marc Jacobs para a Louis Vuitton.

- trazer o incomparável Sir Laurence Olivier no papel do patriarca Lord Marchmain, e o até então pouco conhecido ator Jeremy Irons, no papel do jovem de classe média Charles Ryder, que se torna o melhor amigo de Sebastian.

- ser até hoje erroneamente creditada à BBC, inclusive por renomados críticos e autores, devido à forte franquia que a rede pública britânica estabeleceu para dramas de época e adaptações de clássicos literários.

Assista ao documentário da ITV3 sobre o drama aqui.

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... NOS EUA: Estreava Dinastia (Dynasty), no dia 12 Janeiro de 1981. Dinastia foi a resposta da rede americana ABC ao sucesso de Dallas, que havia estreado em 1978 na CBS. Com uma fórmula bem semelhante à concorrente (dinheiro e intrigas em família), mas beirando o trash, a novela trazia a saga dos Carrington, e acabou se transformando num ícone do materialismo dos anos 1980 nos EUA.

Mesmo com o toque de Midas do celebrado produtor Aaron Spelling (de As Panteras, A Ilha da Fantasia, SWAT e Casal 20), Dinastia só fez sucesso na segunda temporada, após a entrada da maquiavélica Alexis Carrington (Joan Collins), apelidada de J.R. Ewing de saias, ex-mulher de Blake Carrington (John Forsythe, a voz de Charlie no seriado As Panteras). Destaque também para a então desconhecida Heather Locklear (de Melrose Place), interpretando a jovem Sammy Jo, que casa com o sexualmente confuso Steven Carrington (Al Corley).

Transmitida no Brasil pela Record, e depois pela Bandeirantes, nunca chegou a ter o mesmo sucesso que teve no seu país de origem. Mesmo assim Dinastia é relevante por:

- trazer o primeiro personagem homossexual no horário nobre da conservadora TV aberta americana. O crítico Stephen Tropiano argumenta que, devido à pressão de religiosos e da interferência do departamento de Standards and Practices da ABC, o personagem acabou “heterossexualizado” e nunca atingiu seu potencial.

- contar com a participação de Rock Hudson, que fez par romântico com Linda Evans. Após a notícia de que o ator estaria infectado com o vírus do HIV, houve muita especulação na imprensa quanto à possibilidade da atriz ter contraído a doença pelo fato de tê-lo beijado na boca.

- popularizar a moda das ombreiras nos anos 80, através dos personagens de Joan Collins e Linda Evans. Na verdade a influência do programa vai além das ombreiras, com o lançamento em 1985 de uma linha própria de roupas, bijuterias, maquiagem, toalhas, lençóis e perfumes.

- ser considerada para uma versão cinematográfica, uma espécie de prequel, que mostraria os personagens Alexis e Blake Carrington nos anos 60 (pegando uma carona na onda Mad Men e a atual obsessão americana com os "anos Kennedy").



Em tempo: o que estaremos escrevendo em 2041 a respeito da TV de 30 anos atrás?
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